OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE!

O ano é 2020, um ano marcado por perdas, desafios, pressões, conflitos e superações. Um ano que transformou (e ainda está transformando) a história de todas as pessoas, em todo o mundo e independentemente da idade.

Bebês que chegaram ao mundo nesta fase foram levados diretamente da maternidade para as suas casas, onde permaneceram por alguns meses, reclusos e impedidos de visitarem seus parentes, de serem levados às praças, às praias, ao mundo fora da barriga, de serem expostos ao grande inimigo da humanidade, um vírus invisível e sobre o qual pouco se conhece, já quase em 2021.

Jovens foram afastados de seus amigos, mantidos presos em suas residências e atentos às suas telas, que se tornaram as ferramentas capazes de os manterem livres em suas descobertas. Dali passaram a ver o mundo e suas notícias: dos amigos, dos familiares, das escolas, dos cursos, do vírus, do desemprego, das regras, do arroz, da China, da política, das brigas, das fofocas, tudo junto e misturado, num tempo de exposição aos seus dispositivos móveis, antes limitado pelos familiares e/ou pelos professores, agora ilimitado, ao contrário, incentivado.

Adultos descobriram que a tal segurança, outrora apresentada como sinônimo de estabilidade, não existe! Não em 2020, não diante de uma pandemia provocada por um vírus que cientistas do mundo inteiro ainda estudam, não quando um negócio que estava em pleno crescimento é fechado por falta de condições financeiras de se manter em atividade num período tão turbulento.

Desemprego, home office, teletrabalho, contratos suspensos, contas atrasadas, crianças irritadas, jovens ansiosos, cobranças, pressões, informações desencontradas, emoções descontroladas. Um cenário catastrófico, cujos resultados têm sido traduzidos pelo aumento do número de suicídios, de indivíduos em uso de ansiolíticos e antidepressivos, de violência doméstica, de divórcios e de afastamentos das atividades laborais. Se já não era fácil encarar a vida adulta antes, parece que 2020 resolveu contribuir com um aumento dos desafios, uma espécie de atualização do videogame da vida.

Se antes éramos criados como se houvesse uma espécie de sequência lógica neste videogame, hoje não mais. A ideia de que há um “ciclo natural” da vida, onde cada indivíduo nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre pode fazer algum sentido nos estudos da biologia, mas não pode ser usada como base para compreender a vida humana, sobretudo em tempos de pandemia.

Ainda não temos explicações convincentes sobre o porquê de alguns perderem a vida para o vírus, mas muitos aprendemos da maneira mais difícil o significado da expressão “dar valor ao presente”. O “ciclo natural” da vida foi duramente interrompido para algumas pessoas: jovens, adultos e idosos.

Há estudos indicando que estes últimos são os que mais sofreram diante desta situação específica, ainda sofrem, mas não são os únicos. A bagunça se estendeu na história de todos os humanos e não apenas fez, como continua fazendo, muitos estragos, sobre os quais precisaremos agir intensamente, a fim de preservarmos a integridade da espécie. E isso inclui alguns componentes, entre eles, a solidariedade e a empatia.

Podem parecer ingredientes simples, mas é importante que tenhamos noção sobre a riqueza destas sementes e que saibamos adubar os terrenos onde estão sendo plantadas, sob pena se tornarem recursos escassos, e cuja extinção representaria um perigo para a sobrevivência das espécies. É triste percebermos que alguns terrenos estão recebendo ervas daninhas, ao invés de boas sementes. Combatê-las é um dever de todos nós, mas só faremos isso se nos atentarmos para o que estamos semeando, não os nossos vizinhos.

É fácil encontrarmos vizinhos com terrenos germinando cupins amargosos, difícil é nos mantermos focados nas nossas semeaduras. Isso porque temos uma tendência natural a respondermos às adversidades usando como base o velho princípio do “olho por olho, dente por dente”. Daí, se um vizinho cultiva cupim amargoso, por que semearmos solidariedade e empatia?

Eu poderia citar uma longa relação de motivos para observarmos o que estamos cultivando, sobretudo nestes tempos tão difíceis como os que estamos vivendo neste ano marco de nossas histórias, mas me apegarei apenas em um: nenhum de nós planta cupim amargoso e colhe solidariedade e empatia!

Estamos todos sofrendo: bebês, jovens, adultos e idosos, todos com receio do que o futuro nos reserva, com medos de não darmos conta das atividades, de não conseguirmos pagar as contas, de não podermos brincar em espaços livres, de não sentirmos amor e proteção, de não acordarmos vivos amanhã, de não termos onde morar, de perdermos tudo que foi conquistado após anos de esforços. Diferentes fases da vida, diferentes medos, o videogame da vida.

Lidaremos melhor com estes medos presentes em todas as fases se compreendermos que todos são justificáveis, que todos têm um porquê, que vivemos fases e contextos diferentes, que fomos atingidos de maneiras diferentes, mas fomos atingidos, e não apenas pela pandemia. Para alguns restaram apenas ervas daninhas a serem cultivadas, elas crescem e se multiplicam com muito mais agilidade que sementes como solidariedade e empatia.

Cabe a cada um de nós cuidarmos de nossos plantios, observarmos que a cultura do “olho por olho, dente por dente” não nos eleva ao estado de justiceiros, ao contrário, nos coloca como semeadores de mais cupins amargosos.

Cabe a cada um de nós compreendermos que devemos lutar, sim, mas pela cidadania, pela cultura de paz, onde a justiça não deixa de existir, mas age com foco na ideia de que cada um colherá aquilo que plantar.

E você, está plantando o quê?

Patrícia Rezende Pennisi – CRA/SP 6-002583

Mestranda em Recursos Humanos e Gestão do Conhecimento, Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas, Professora Universitária e Diretora da Jeito em Gestão – conteúdos on-line.

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