O GRANDE CANCELADOR

A perversidade humana sempre existiu e é estudada pela psicologia sob diferentes visões, que consideram o tema tanto sob um aspecto relacionado à sexualidade das pessoas, como também, numa visão ligada à malignidade e à crueldade, sendo esta segunda a abordagem principal deste artigo.

A ideia de que o mal é uma característica presente em todos os indivíduos também não é novidade, durante o século XVII o filósofo inglês Thomas Hobbes publicou uma obra que até hoje é debatida. O livro intitulado “Leviatã” foi publicado em 1651 e trouxe as considerações do autor sobre a natureza humana. Trata-se de um referencial para o estudo do Poder e da Política, que gerou inúmeras publicações conciliando olhares da Teologia, da Filosofia, do Direito e da Política.

A figura de Leviatã é descrita na Bíblia no Livro de Jó como um monstro grande e indomável que reside no mar, tendo diferentes interpretações e presente em outras passagens bíblicas também. Uma criatura perigosa utilizada para simbolizar as forças do mal e do caos. Um poder simbólico-religioso utilizado como base para garantir a soberania do Estado sobre seus súditos, estabelecendo uma relação de hierarquia em que se constroem relações humanas baseadas na obediência e na punição daqueles que descumpram um contrato social estabelecido com foco em manter a ordem e a proteção dos indivíduos, de acordo com Hobbes.

Daí surgiu a Teoria do Estado Hobbesiano, inspirada no monstro bíblico como objeto de imposição da obediência dos indivíduos ao Estado soberano. O autor preocupou-se em distinguir as funções do Estado das funções da Igreja, sendo distintas a mitologia do monstro Leviatã mitológico e do Leviatã Hobbesiano.

O contexto histórico em que a narrativa foi construída explica as considerações de Hobbes visando pôr fim ao clima de guerras religiosas e políticas que vivenciou. Um período de transição do feudalismo em crise à utopia da construção do Estado. Uma fase em que o desenvolvimento de histórias e lendas tinham como protagonistas monstros marinhos, permeados pelo imaginário popular e explicado pelo medo do desconhecido, proveniente das descobertas científicas e da fase encarada. De acordo com Mattos (2011), na Inglaterra desse período, surge uma discussão a respeito do problema da representação e da legitimidade do Estado.

Inúmeros estudos sobre esta obra estão publicados e fazem com que reflitamos sobre a manifestação do comportamento humano em diferentes correntes de estudos. Questões sobre a utilização de símbolos que representem um determinado estado vivenciado em diferentes épocas por diferentes indivíduos sugerem que é parte da natureza humana interpretar e modelar informações a partir daquilo que se traduz, em sua interpretação, como verdadeiro.

Neste sentido, Geertz (1989) propõe a importância da compreensão sobre o conceito de cultura para que sejamos capazes de compreendermos a conduta humana. Para ele tratam-se de “sistemas entrelaçados de signos interpretáveis, a cultura não é poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos”. É um padrão de significados que são incorporados em símbolos e transmitidos historicamente (SEVERINO, 2014).

Hobbes traduziu bem este conceito, sua obra foi perpetuada e até hoje é estudada e serve de referência para novas interpretações sobre as relações de poder, domínio, obediência e punição. Os signos interpretáveis são as condições vivenciadas durante o século XVII, definidas por Limongi (2002) como “uma época de intensa paixão teológica e de cerrada perseguição religiosa. Também foi marcado pela memória vivida de massacres e assassinatos por causas da fé e por guerra civil devastadora entre os aderentes e credos conflitantes”.

Os significados desta fase foram incorporados e são transmitidos historicamente até hoje, quando nos encontramos no século XXI. Foram sendo adaptados diante de novos padrões de significados, decorrentes de novas incorporações em símbolos, que agora têm se manifestado com maior agilidade e com uma publicidade jamais vista em qualquer outro contexto histórico vivenciado pela humanidade.

Os símbolos modernos ganharam as redes sociais e agora são capazes de atingirem movimentos exponenciais, os sistemas entrelaçados de signos interpretáveis são facilmente agrupados em símbolos que assustam e oprimem aqueles considerados destoantes e, o perigo do grande e indomável monstro do mar, manifesta-se ainda mais forte sob a figura do “Cancelador”, agora na Internet e não no mar.

Trata-se de um monstro capaz de mutilar a autoestima, de negar a redenção, de manipular os súditos, de enaltecer os egos e de privar o direito à liberdade, aquele previsto em nosso Artigo 5º da Constituição Federal (CF), que afirma que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Não são! Não em tempos de redes sociais, quando as exposições são rápidas e atingem níveis incontroláveis, tempos em que continuam havendo distinções e desrespeito às diferenças, em que continuam havendo crimes e preconceitos, julgamentos e perseguições. Tempos em que está naturalizada a política do cancelamento.

A diferença é que os súditos, ainda que de certa forma obedientes e temerosos das punições que não somente o Estado ou as Igrejas lhes outorguem, agora têm nos seus teclados uma poderosíssima arma de combate ao Grande Leviatã Cancelador. E estão lutando, alguns até inconscientes do tamanho da malignidade e da crueldade característica deste novo campo de guerra, mas estão, resta esperança! Há Canceladores se tornando Cancelados!

A perversidade humana sempre existiu e é representada por diferentes graduações, mas as redes sociais, não. Talvez elas nos proporcionem a conscientização do quão responsáveis somos por nossos atos. Que façamos bom uso desta ferramenta e do poder que temos de não aceitarmos as crueldades visíveis em algumas práticas sociais sob temor deste novo símbolo!

Patrícia Rezende Pennisi – CRA/SP 6-002583

Especialista em gestão estratégica de pessoas, professora universitária e diretora da Jeito em Gestão – conteúdos on-line.

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