HORMÔNIOS REPRESADOS

Estamos em isolamento social, devido à pandemia do novo Coronavírus, e a solidão forçada,
ao mesmo tempo em que ativou em nós o botão da empatia com os que estão sofrendo lá
fora, subtraiu um pedaço dessa mesma empatia com os que estão fechados entre as mesmas quatro paredes onde estamos.
Fazemos campanhas para arrecadar alimentos e máscaras de proteção individual, enquanto
criamos obstáculos e dissensos com os jovens que dividem a cela conosco. Como se nossa
paciência não suporte um tempo de convivência intensa, dias e noites dividindo o mesmo
chão.
É um exercício de egoísmo, dentro do qual imaginamos que nós, os adultos, somos os grandes prejudicados pela situação e nem paramos para pensar nas perdas acumuladas por adolescentes.
Primeiro, porque o adolescente é um animal gregário, que só encontra o equilíbrio entre os pares do seu bando; depois, porque eles estão em casa por nós, não por eles: teoricamente, eles não estão no grupo de risco, é muito pequena a porcentagem deles que, contaminados, sofrerão conseqüências sérias; finalmente porque, estando continuamente em casa conosco, perderam a privacidade dos momentos de que precisam para conversar com amigos, contar angústias e medos, dividir segredos que não podem repartir conosco.
Passado o isolamento que esta pandemia impõe, serão eles, os adolescentes, que estarão sofrendo com fantasmas e dores psíquicas. Nós nos reajustaremos, porque temos maturidade e vivência para superar os problemas deste período. Eles não, porque ainda não possuem o tempo de vida que nós possuímos.
Cabe a nós, pais, a tarefa de minimizar tais conseqüências, e essa tarefa é para ontem: precisamos devolver-lhes a privacidade do tempo com os amigos; precisamos agradecer-lhes o sacrifício que estão fazendo por amor a nós; precisamos voltar no tempo e ser um pouco adolescentes também.
Hormônios são como rios, fluem continuamente e não podem ser represados: quando não têm como seguir seu curso, ou explodem a represa, ou buscam caminhos alternativos. As duas soluções são ruins.
Lembre-se: o rio não é violento quando as margens não o oprimem.

Por Manuel Vázquez Gil

Dr. Manuel Gil é psicólogo, psicanalista clínico, doutor em psicanálise, representante da ABRAÇA – Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo, conferencista, palestrante e consultor especialista em inclusão de crianças com necessidades especiais.

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