AMOR EXPLÍCITO

Que o amor se encontra aparente nos pequenos gestos já sabemos, mas em 2020, que tem apresentado dias cada vez mais tensos, com notícias tristes e espantosas, valha-me Deus, estes pequenos gestos estão parecendo cada vez menores, cada vez mais distantes. Mais da metade de um ano inteirinho vivido nas entrelinhas, nas incertezas, no distanciamento social e na ausência de contatos físicos para todos aqueles que estão seguindo corretamente as orientações médicas, a fim de preservarem a saúde e não se infectarem com o novo coronavirus.

Esta proteção é louvável, claro, não questiono tal importância, mas tenho me percebido questionando, quase que diariamente, os tais pequenos gestos. E um dia destes, debatendo com amigos, me disseram a seguinte frase: – As pessoas fazem o que podem na medida que conseguem…

Esta foi uma das frases mais verdadeiras que ouvi na vida e me conformei com a justificativa, mas passados mais alguns dias me dei conta de que vez ou outra precisamos ser amados explicitamente, de que às vezes somos tão amados nas entrelinhas, que esquecemos que somos amados.

O que chamo de amor explícito não é apenas o contato físico, mas a clareza na exposição dos sentimentos, uma transparência que me faz falta em muitos momentos, pois nem sempre me sinto apta a desvendar os mistérios de algumas atitudes, por mais que estas possam parecer claras para quem age com amor implícito. Um EU TE AMO, SINTO SUA FALTA, GOSTARIA DE ESTAR COM VOCÊ AGORA, ditos de maneira apropriada e no contexto certo, fazem falta!

A gente se acostumou a não abraçar, a não beijar, a não estar junto, tudo isso em nome da saúde, mas quando paro para pensar nisso tudo, tenho a impressão de que a pandemia de COVID-19 não pode ser a única a ser responsabilizada. Muita gente já vivia no piloto automático bem antes da pandemia aparecer e oferecer uma justificativa aceita para alguns comportamentos.

Era um tal de abraçar menos dizendo que compensaria depois, de não se reunir aos domingos para um belo almoço dizendo que o cansaço da semana de trabalho impedia o deslocamento, de marcar menos encontros dizendo que os compromissos profissionais ocupavam a agenda toda, de não se atentar ao entorno familiar dizendo que o trabalho duro se fazia necessário para dar conforto. E aí veio a pandemia. Veio e impôs que realmente tudo isso deveria ficar pra depois, ao mesmo tempo em que fez com que algumas pessoas que conviviam numa mesma casa parassem e observassem os outros moradores sem a máscara do trabalho duro para dar conforto.

Veio e bagunçou de vez as relações, mostrou que alguns discursos envolviam falsas compensações, falsas expectativas e falsos sentimentos, que na correria do dia-a-dia tumultuado e cheio de compromissos profissionais nem tudo era por amor. Casais se separaram, famílias inteiras se estranharam, e a ideia de que “as pessoas fazem o que podem na medida que conseguem” ficou confusa.

Aquele amor aparente nos pequenos gestos tornou-se contestável e deu origem a esta reflexão, será mesmo que fazem o que podem na medida que conseguem?
Ou apenas ligam o piloto automático e creem que assim estão demonstrando o quanto amam, quando na verdade há tempos nem param para pensar se realmente amam?

A verdade é que não sei a verdadeira resposta, nem sei se existe, mas confesso que vez ou outra sinto falta daquele amor de peito aberto, de um EU TE AMO dito olhando no olho, de um ABRAÇO daqueles bem apertados, de uma conversa boba e sem hora marcada, mas que diz claramente: QUERO ESTAR COM VOCÊ! Sem compensações posteriores ou desvendadas das entrelinhas…

Por Paloma Almeida

Pedagoga, influenciadora do comportamento resiliente e colunista da Jeito em Gestão – conteúdos on-line.

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